O destino da Nação em nossas mãos
Luiz Felipe D'Avila
Luiz Felipe D'Avila
17 de Abril de 2019
Os primeiros cem dias do governo Bolsonaro serviram para nos dar um choque de realidade. Desfizeram-se as ilusões com o presidente da República e suas convicções reformistas e evaporou-se o otimismo do mercado com o governo. A ilusão blinda as pessoas da árdua e difícil tarefa de confrontar a si mesmas e de revisar suas crenças, ações e escolhas que as levaram a trilhar o caminho equivocado. A ilusão sempre traz novas desilusões porque a realidade não se enquadra na moldura das nossas fantasias. Ao resgatarmos o bom senso e o verdadeiro entendimento dos desafios do País, podemos traçar um plano de ação realista para o Brasil voltar a crescer, criar empregos e fortalecer as instituições democráticas.

Primeiro é preciso reconhecer que Jair Bolsonaro é um político coerente com suas promessas e sua trajetória pública. Durante a campanha presidencial foi sincero ao afirmar que não entendia nada sobre os temas relevantes para o País e que delegaria ao seu "posto Ipiranga" - Paulo Guedes e seu time - a tarefa de conduzir as reformas econômicas. Bolsonaro deixou claro que o seu real interesse estava na pauta de costumes - em menino vestir azul e menina, rosa - e em sua disposição de combater os comunistas infiltrados nas escolas, na cultura e na sociedade, cujo objetivo final é destruir a família brasileira e a Nação. Ele está cumprindo o que prometeu. E provavelmente vai passar o resto do seu mandato utilizando as redes sociais para mobilizar a sua tribo para a guerra santa contra o comunismo e os males que desabonam o seu conceito de "família cristã".

Essa cruzada de costumes revela que Bolsonaro continuará a ser Bolsonaro, um político medíocre que defende pautas insignificantes e corporativistas que não ajudam o País a se tornar mais produtivo, competitivo, democrático, pluralista e tolerante. Portanto, se esperarmos gestos de liderança do Palácio do Planalto, estamos fadados a colher desilusão e frustração.

Na ausência de um presidente da República capaz de dar rumo ao País, o Congresso Nacional, em parceria com a sociedade civil, terá de liderar a Nação. Trata-se de uma oportunidade ímpar para o Parlamento resgatar seu protagonismo, sua credibilidade e relevância. Afinal, o destino das reformas está nos votos dos parlamentares. Somente eles têm o poder de aprovar as emendas constitucionais capazes de salvar a Previdência, reformar o caótico sistema tributário e aprovar a reforma política (especialmente o voto distrital) - medidas vitais para resgatar a credibilidade das instituições democráticas, pavimentar o caminho da retomada do crescimento e deixar um Brasil melhor para as próximas gerações.

Os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, deveriam inspirar-se no deputado Ulysses Guimarães, o presidente da Câmara dos Deputados que liderou o Congresso e o País após o fim do regime militar, em 1985. Ulysses ignorou o claudicante então presidente da República, José Sarney, e conduziu o entendimento no Parlamento e na sociedade, aprovando leis, reformas e até mesmo uma nova Constituição. Não cabe aqui julgar o mérito das suas decisões, apenas vale a pena lembrar que o centro do poder naquele período permaneceu no Legislativo até a eleição do presidente Collor, em 1990.

Nunca foi tão importante para o País ter um Congresso Nacional forte, soberano e em sintonia com a sociedade para aprovar as reformas inadiáveis do Estado brasileiro. O Parlamento e suas novas lideranças têm o poder de criar a "nova política" - não a demonização infantil da política propagada por Bolsonaro, mas a política de defesa do interesse nacional, do bem-estar das próximas gerações e do zelo pelas instituições democráticas. Chegou a hora de os parlamentares mostrarem que não temem enfrentar cara feia e críticas de gente que defende os privilégios do corporativismo e do patrimonialismo. Chegou o momento de aproveitar o talento dos quadros técnicos do Congresso e da boa interlocução política com a equipe econômica para aprimorar as reformas e apresentar emendas que melhorem o projeto do governo. A aprovação da reforma trabalhista no Congresso, durante o mandato do presidente Michel Temer, é um bom exemplo. Os deputados e senadores mostraram que são capazes de aprovar uma reforma ainda mais ousada e robusta do que a proposta enviada pelo Poder Executivo. O então relator da reforma trabalhista na Câmara, deputado Rogério Marinho, é hoje o secretário da Previdência e do Trabalho no Ministério da Economia.

Os governadores e prefeitos também terão de mudar de atitude. Será preciso trocar as visitas ao Palácio do Planalto pela busca de soluções inovadoras nos seus Estados e municípios, procurando o apoio do setor privado e do terceiro setor para suprir a carência de investimento público em áreas prementes, como educação, segurança, saúde e saneamento básico. A melhor forma de valorizar a boa política é o Congresso, os governantes e a sociedade civil se unirem em torno da aprovação das reformas constitucionais. Felizmente, começou a surgir uma coligação informal - constituída por políticos de vários partidos, líderes empresariais e organizações do terceiro setor - em prol das reformas, cuja atuação pode ser decisiva para aprová-las no Parlamento.

Nesse sentido, o governo Bolsonaro está prestando um bom serviço ao País. Está ajudando os governantes, os parlamentares e a sociedade civil a se desintoxicarem da dependência química da Presidência da República. Quanto mais cedo as lideranças nacionais se conscientizarem de que as soluções inovadoras para os problemas prementes do País brotarão do Congresso e dos Estados e municípios, melhor para o Brasil. O destino do País está em nossas mãos, e não nas mãos de Bolsonaro.

(*) Cientista político

Artigo publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", em 15/03/2019

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