"O cassino dos apoios", por José Aníbal
José Aníbal
José Aníbal
30 de Setembro de 2015

Dilma Rousseff conseguiu surpreender mesmo seus seguidores ao colocar o Ministério da Saúde sobre o balcão de negócios. A extravagante solução, ao que consta, teria sido dada por Lula durante uma de suas passagens pelo Palácio da Alvorada. Faz sentido. Ninguém conhece a tabela das lealdades políticas como ele.


Como anotou a professora Ligia Bahia em um brilhante artigo publicado em O Globo, a importância da saúde na vida das pessoas e da sociedade foi ignorada. Mesmo encabeçando qualquer lista de prioridades dos cidadãos, a saúde vale agora é pelo cargo de ministro, com seu orçamento, suas nomeações e contratos.


Dois pontos merecem atenção. Primeiro, a frieza com que o governo se desvencilhou da pasta, em nome de um respiro de governabilidade, dá a exata medida do que restou da liderança de Dilma. Segundo, o leilão do Ministério da Saúde confirma a falácia do discurso da "marca social" dos governos petistas.


Em seu artigo, a professora Ligia Bahia lembra que o único traço de continuidade das políticas de saúde desde a redemocratização tem sido o SUS. Colocar o Sistema Único de Saúde à mercê das redes de clientelismo e de conveniência política não é só um profundo retrocesso. É uma usurpação de direitos do cidadão.


O descompromisso político do governo com as áreas sociais mais sensíveis não se resume à saúde. Por exemplo, a Educação. Há meses lembrei aqui do discurso de posse do então novo ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Na ocasião, ele disse que o ministério era a missão de vida, sonho de todo gestor, o maior desafio da carreira.


Aloizio Mercadante não esquentou a cadeira. Trocou a missão da vida pela Casa Civil. Em cinco anos, Dilma já teve seis ministros da Educação. O atual, aliás, dizem estar por um fio -- também em nome do cassino dos apoios. O maior deficit da "Pátria Educadora" é o de prioridade. Os cortes nos programas são só sua face visível.


Fechando a trinca, o que dizer da segurança pública? Contam os palacianos que Dilma, em ríspida conversa com o ministro da Justiça, engavetou ações de segurança, pois não seria da conta dela, mas sim dos estados. Desde então, o ministro se resume a reclamar das cadeias e a administrar passivamente a barbaridade de 50 mil assassinatos por ano.


Depois que o Ipea revelou que Dilma inflou o número de pessoas que saíram da pobreza nos governos do PT em quase cinco vezes, nada mais deveria nos espantar. Mas espanta. O Ministério da Saúde, independentemente de quem possa vir a assumi-lo, é daquelas pastas que um estadista jamais colocaria na roleta. A não ser Dilma.


(*) presidente nacional do Instituto Teotônio Vilela e senador suplente pelo PSDB-SP. Foi deputado federal e presidente nacional do PSDB


Artigo publicado no Blog do Noblat (O Globo), em 30/09/2015

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