“O populismo em franco declínio na América Latina”, por José Roberto Mendonça de Barros
02 de Dezembro de 2015
A eleição de Mauricio Macri na Argentina claramente sinaliza a decadência do populismo na América Latina. Esse modelo, que sempre se utilizou intensamente da corrupção e da tentativa de eternização no poder, terá na Venezuela, que realizará eleições no início de dezembro, o seu próximo capítulo. O lulopetismo caminha, rapidamente, na mesma direção.

O novo presidente argentino mostrou muita habilidade ao construir um conjunto de alianças com outros agrupamentos políticos, como o Partido Radical e com o governador de Córdoba, de forma a ter expressão nacional, que complementou sua força na Província de Buenos Aires, onde conseguiu tirar o peronismo do poder, depois de muitas décadas.

É uma excelente notícia para a Argentina, que tem chance de sair do atoleiro da recessão e voltar a construir uma rota de crescimento. Certamente, a agenda será bastante difícil, mas perfeitamente possível de ser realizada, especialmente, se o novo governo conseguir duas coisas: estimular a retomada das exportações agropecuárias, que rendem divisas a curto prazo, e renegociar a dívida externa do país, o que colocaria a Argentina de volta no mercado internacional de crédito. Essas duas linhas permitiriam reduzir os controles de câmbio e, ao longo do tempo, colocar o peso numa posição mais competitiva, trazendo de volta o investimento.

É muito bom este movimento para o Brasil. Macri já sinalizou claramente que quer a mudança na orientação do moribundo Mercosul, no que será, certamente, secundado por Paraguai e Uruguai. É muito bom também para as empresas brasileiras, que sempre tiveram na Argentina o grande mercado de nossos produtos industriais. O comércio na região poderá voltar a crescer, o que reforçará a tendência de maiores exportações industriais pelas empresas brasileiras.* * *No Brasil, está cada vez mais claro que a economia estará em queda livre até junho do ano que vem, pelo menos. A taxa de desemprego calculada para o Brasil como um todo atingiu quase 9% no terceiro trimestre. Projetamos 10% no final de 2015 e 12% no segundo trimestre de 2016. Essa elevação significa mais de três milhões de pessoas desocupadas, que se somarão aos nove milhões que se encontravam sem trabalho no final de setembro passado.

Novos fatores contribuem para essa tendência. Existe uma forte piora na situação financeira dos Estados: pelo menos dez deles não estão pagando regularmente salários e muitos não terão recursos para quitar o 13.º. Em resposta ao sufoco, muitos Estados estão elevando impostos (o que agrava ainda mais a recessão) e começando a fazer novos truques. Dois deles merecem atenção: o primeiro são leis estaduais que permitem a utilização dos recursos de depósitos judiciais para pagamentos variados, inclusive de custeio e de aposentados. A situação é tão esdrúxula que existem casos da apropriação de depósitos judiciais de disputas nas quais o Estado não é parte. Ao utilizar-se desses recursos para custeio, os Estados não terão como honrar o pagamento para a parte vencedora quando da solução do litígio. Um Estado como o Rio de Janeiro já se utilizou, pelas notícias que circulam, de mais de R$ 5 bilhões desta fonte. Tão ruim quanto esse caminho é o de retardar o repasse aos bancos de parcelas do crédito consignado descontadas dos salários de funcionários. Há Estados que já estão com atraso de dois meses nessas transferências.Ao mesmo tempo, a situação das grandes estatais continua preocupante. O novo presidente dos Correios disse que a empresa está na UTI. O seu fundo de pensão é o mais famoso em termos de desmandos e aplicações exóticas. A situação do setor elétrico continua preocupante. Mas, o caso mais grave é o da Petrobrás, que continua em situação dificílima e que até agora apenas conseguiu cortar o orçamento de investimentos. Outros ajustes (venda de ativos e redução de gastos) seguem por serem feitos. Em consequência, a cadeia de fornecedores continua em pânico.

É nesse contexto que surge a ideia lançada pelo ex-presidente Lula de trocar de ministro da Fazenda e relançar a economia. Ora, com a atual situação econômica, a ideia do relançamento é apenas delirante, uma vez que não existem recursos a serem distribuídos, nem tomadores de crédito dispostos a elevar seu endividamento, para que o reaquecimento da economia possa ocorrer. Por outro lado, se a tarefa do novo ministro for fazer o ajuste com o governo perdido como está e em franca fragilidade no Congresso, não vai acontecer nada diferente do que ocorre hoje.

O governo não funciona e não tem agenda. Está em franco esfarelamento. Também não funciona do ponto de vista administrativo, como ilustram bem os casos das dificuldades do portal do E-Social (quase levou à loucura milhares de pessoas) e por não saber o que fazer com o episódio do rompimento da barragem da Samarco. A economia afunda, a administração se perde. A fragilidade política se acentua.

Ora, é impensável que poderemos ficar nessas circunstâncias por mais três anos. Como me disse o cientista político Carlos Melo, o que vimos este ano, nas manifestações pelo Brasil, foi muita indignação, mas ainda sem grande sofrimento, uma vez que a renda real ainda estava mantida e a taxa de desemprego mal havia começado a crescer. Em 2016 veremos a continuidade da indignação (só um distraído pode achar que as revelações da Lava Jato terminarão com os eventos desta semana), agora acompanhada por um grande sofrimento expresso no violento aumento do desemprego e na forte queda da renda familiar.Algo grande vai acontecer no ano que vem e provocar uma mudança política mais profunda. A Lava Jato e movimentações na sociedade certamente serão os catalisadores de tal processo. No seu devido tempo, teremos uma grande melhora na governança, na autoestima e nas perspectivas de crescimento do País.

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