"Impasse político", por José Aníbal
14 de Outubro de 2015

O segundo mandato da presidente Dilma Rousseff chegou prematuramente a um impasse político. Arrastado pela crise ética e sem condições mínimas de liderança e governabilidade, o governo perdeu o foco das questões nacionais para se dedicar exclusivamente à busca de uma improvável sobrevida política.


Depois dos lamentáveis episódios da semana passada, quando órgãos de Estado foram mobilizados para afrontar uma instância de fiscalização e controle da atividade pública, como o TCU, o governo agora concentra seus esforços políticos em tentar judicializar iniciativas indelegáveis do Congresso Nacional.


O impasse é grave, pois revela o descolamento entre a pauta do governo e a agenda da sociedade brasileira - como a crise econômica e suas evidentes repercussões na vida diária de milhões de cidadãos. Enquanto as pessoas sofrem o agravamento das condições de vida, Dilma governa em defesa de si e de seu partido.


A análise dos vetos presidenciais ligados ao aumento de gastos e a apresentação de medidas de ajuste fiscal - como a questão previdenciária e mesmo a criação de novas fontes de receita - estão parados. A crise se agrava, mas nenhuma votação importante para o futuro do país foi realizada nos últimos 30 dias.


A equipe econômica, ao invés de ser blindada e fortalecida pelo governo, vem sendo oferecida em sacrifício ritual aos críticos do ajuste como forma de ganhar tempo e sustentação. O gabinete anti-impeachment nada faz senão distribuir mais cargos, no sentido oposto à austeridade e ao comedimento financeiro necessários.


O ex-presidente Lula, acossado por denúncias cada vez mais consistentes de favorecimento político, pessoal e familiar a partir da promiscuidade sem precedentes com setores do empresariado, amarra sua sobrevivência eleitoral a narrativas conspiratórias cada vez mais fantasiosas e indefensáveis.


Agora os jornais começam também a revelar investigações sobre prováveis vendas de Medidas Provisórias para beneficiar setores específicos. Até a redação final das leis seriam ditadas e aprovadas pelos interessados. Que condições morais tem essa gente para falar em legitimidade ou golpe?


A administração pública virou um subsistema anexado pela ação partidária. É preciso mitigar essa ação tirando poder dos partidos na máquina pública pela radical restrição das carreiras de Estado passíveis de indicação política. Mas atacar essa brecha é atacar a própria forma de governar de Lula e Dilma.


Dilma não tem mais condições de se dirigir à Nação como líder dos destinos do país. O melhor que ela poderia fazer é renunciar para abrir espaço a um pacto nacional capaz de viabilizar as reformas estruturais -- econômica, política e administrativa. Sem isso não haverá reforma alguma. E o país seguirá no impasse.


(*) presidente nacional do Instituto Teotônio Vilela e senador suplente pelo PSDB-SP. Foi deputado federal e presidente nacional do PSDB


Artigo publicado no Blog do Noblat, em 14/10/2015

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