"Há um limite para os avanços tecnológicos?", por José Goldemberg
16 de Maio de 2016

Está se tornando popular entre políticos e governos a ideia que a estagnação da economia mundial se deve ao fato de que o “século de ouro” da inovação científica e tecnológica acabou. Este “século de ouro” é usualmente definido como o período de 1870 a 1970, no qual os fundamentos da era tecnológica em que vivemos foram estabelecidos.


 


 


De fato, nesse período se verificaram grandes avanços no nosso conhecimento, que vão desde a Teoria da Evolução, de Darwin, até a descoberta das leis do eletromagnetismo, que levou à produção de eletricidade em larga escala, e telecomunicações, incluindo rádio e televisão, com os benefícios resultantes para o bem-estar das populações. Outros avanços, na área de medicina, como vacinas e antibióticos, estenderam a vida média dos seres humanos. A descoberta e o uso do petróleo e do gás natural estão dentro desse período.


 


São muitos os que argumentam que em nenhum outro período de um século – ao longo dos 10 mil anos da História da humanidade – tantos progressos foram alcançados. Essa visão da História, porém, pode e tem sido questionada. No século anterior, de 1770 a 1870, por exemplo, houve também grandes progressos, decorrentes do desenvolvimento dos motores que usavam o carvão como combustível, os quais permitiram construir locomotivas e deram início à Revolução Industrial.


 


Apesar disso, os saudosistas acreditam que o “período dourado” de inovações se tenha esgotado e, em decorrência, os governos adotam hoje medidas de caráter puramente econômico para fazer reviver o “progresso”: subsídios a setores específicos, redução de impostos e políticas sociais para reduzir as desigualdades, entre outras, negligenciando o apoio à ciência e tecnologia.


 


Algumas dessas políticas poderiam ajudar, mas não tocam no aspecto fundamental do problema, que é tentar manter vivo o avanço da ciência e da tecnologia, que resolveu problemas no passado e poderá ajudar a resolver problemas no futuro.


 


Para analisar melhor a questão é preciso lembrar que não é o número de novas descobertas que garante a sua relevância. O avanço da tecnologia lembra um pouco o que acontece às vezes com a seleção natural dos seres vivos: algumas espécies são tão bem adaptadas ao meio ambiente em que vivem que deixam de “evoluir”: esse é o caso dos besouros que existiam na época do apogeu do Egito, 5 mil anos atrás, e continuam lá até hoje; ou de espécies “fósseis” de peixes que evoluíram pouco em milhões de anos.


 


Outros exemplos são produtos da tecnologia moderna, como os magníficos aviões DC-3, produzidos há mais de 50 anos e que ainda representam uma parte importante do tráfego aéreo mundial.


 


Mesmo em áreas mais sofisticadas, como a informática, isso parece estar ocorrendo. A base dos avanços nessa área foi a “miniaturização” dos chips eletrônicos, onde estão os transistores. Em 1971 os chips produzidos pela Intel (empresa líder na área) tinham 2.300 transistores numa placa de 12 milímetros quadrados. Os chips de hoje são pouco maiores, mas têm 5 bilhões de transistores. Foi isso que permitiu a produção de computadores personalizados, telefones celulares e inúmeros outros produtos. E é por essa razão que a telefonia fixa está sendo abandonada e a comunicação via Skype é praticamente gratuita e revolucionou o mundo das comunicações.


 


Há agora indicações que essa miniaturização atingiu seus limites, o que causa uma certa depressão entre os “sacerdotes” desse setor. Essa é uma visão equivocada. O nível de sucesso foi tal que mais progressos nessa direção são realmente desnecessários, que é o que aconteceu com inúmeros seres vivos no passado.


 


O que parece ser a solução dos problemas do crescimento econômico no longo prazo é o avanço da tecnologia em outras áreas que não têm recebido a atenção necessária: novos materiais, inteligência artificial, robôs industriais, engenharia genética, prevenção de doenças e, mais do que tudo, entender o cérebro humano, o produto mais sofisticado da evolução da vida na Terra.


 


Entender como uma combinação de átomos e moléculas pode gerar um órgão tão criativo como o cérebro, capaz de possuir uma consciência e criatividade para compor sinfonias como as de Beethoven – e ao mesmo tempo promover o extermínio de milhões de seres humanos –, será provavelmente o avanço mais extraordinário que o Homo sapiens poderá atingir.


 


Avanços nessas áreas poderiam criar uma vaga de inovações e progresso material superior em quantidade e qualidade ao que se produziu no “século de ouro”. Mais ainda enfrentamos hoje um problema global, novo aqui, que é a degradação ambiental, resultante em parte do sucesso dos avanços da tecnologia do século 20. Apenas a tarefa de reduzir as emissões de gases que provocam o aquecimento global (resultante da queima de combustíveis fósseis) será uma tarefa hercúlea.


 


Antes disso, e num plano muito mais pedestre, os avanços que estão sendo feitos na melhoria da eficiência no uso de recursos naturais é extraordinário e não tem tido o crédito e o reconhecimento que merecem.


 


Só para dar um exemplo, em 1950 os americanos gastavam, em média, 30% da sua renda em alimentos. No ano de 2013 essa porcentagem havia caído para 10%. Os gastos com energia também caíram, graças à melhoria da eficiência dos automóveis e outros fins, como iluminação e aquecimento, o que, aliás, explica por que o preço do barril de petróleo caiu de US$ 150 para menos de US$ 30. É que simplesmente existe petróleo demais no mundo, como também existe capacidade ociosa de aço e cimento.


 


Um exemplo de um país que está seguindo esse caminho é o Japão, cuja economia não está crescendo muito, mas sua população tem um nível de vida elevado e continua a beneficiar-se gradualmente dos avanços da tecnologia moderna.


 


(*) professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e é presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)

Artigo publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", em 16/05/2016 


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