"Comparação infeliz", por Ataídes Oliveira
05 de Março de 2015

Pela bagunça geral da casa e pela ressaca dos convidados, dá para ver que o primeiro mandato da presidente Dilma foi uma festa de arromba, com a irresponsabilidade como norma. Hora de contabilizar os prejuízos, recolher copos e pratos quebrados, limpar a sujeira, ajeitar os móveis e endireitar os quadros tortos na parede da sala. Precisamos urgentemente rearrumar essa casa chamada Brasil e encontrar um remédio eficaz para as dores de cabeça causadas pelos excessos e inconsequências do PT no governo.


Não vai ser fácil. Em vez de aliviar a ressaca moral e econômica gerada pelo aparelhamento do Estado, pela institucionalização da corrupção e pelo desarranjo das contas públicas, o arrocho fiscal anunciado pelo governo só vem agravando o mal estar dos brasileiros, castigados pelo corte de benefícios sociais e trabalhistas, pelo aumento de impostos, da conta de luz, dos combustíveis e dos preços em geral.


As notícias negativas se multiplicam, aumentando as incertezas sobre os rumos da economia. A inflação de janeiro bateu em 1,24%, a mais alta para o mês em 12 anos; a expectativa é que a escalada de preços supere os 7,3% em 2015. O PIB, por sua vez, deve encolher quase 0,6% este ano, na previsão do mercado, que também estima retração de 0,72% na produção industrial.


O déficit da balança comercial em fevereiro foi recorde – US$ 2,84 bilhões, o pior para o mês desde o início da série histórica, em 1980. O superávit primário do governo central (Tesouro, Banco Central e Previdência Social) também teve resultado desanimador em janeiro: R$ 10,4 bilhões, o mais baixo para o mês desde 2009, auge da crise financeira internacional.


Nesse cenário de recessão, o fantasma do desemprego já é cada vez mais presente na vida do trabalhador – uma realidade que nem as taxas oficiais conseguem mais esconder, apesar da metodologia distorcida da PME (Pesquisa Mensal de Emprego), que infla o número de empregados e subestima o de desempregados.


A presidente Dilma tem tentado, em vão, justificar o injustificável. Ao defender as medidas de ajuste fiscal promovidas pela equipe econômica, ela disse, recentemente, que está agindo como qualquer mãe e dona de casa agiria para ajustar o orçamento doméstico.


Comparação infeliz. Uma boa dona de casa administra com zelo as contas do lar. Dilma quebrou as finanças do Brasil e trouxe a inflação de volta ao país. Basta dizer que o déficit nominal das contas públicas mais do que dobrou entre 2013 e 2014 (de – 3,25% para -6,7%, um dos maiores do mundo).


Uma mãe responsável e atenta assegura que a casa funcione em ordem, sem nada deixar faltar à sua família. Dilma falhou em administrar o PAC, não conseguiu deslanchar as obras de infraestrutura necessárias ao país nem assegurar oferta e qualidade no abastecimento de energia elétrica. Os seus supostos filhos terão de cobrir um rombo de R$ 23 bilhões na conta de desenvolvimento energético e  de amargar um aumento médio de cerca de 50% na conta de luz este ano.


Aliás, mãe que é mãe não estimula os filhos a consumirem algo que pode vir a faltar em breve, como Dilma fez em 2013 quando anunciou em cadeia nacional de rádio e TV a redução das tarifas de energia elétrica.


Mais que isso. Uma boa mãe nunca é complacente quando um filho chega em casa com algo que não lhe pertence. Exige explicações e sabe ser rigorosa ao cobrar a reparação de eventuais erros. Dilma no mínimo fez vista grossa diante dos desvios bilionários na Petrobras. Sob os seus olhos e a sua guarda, como presidente do conselho de administração da estatal, foi arquitetado e colocado em ação o maior escândalo de corrupção da história nacional.


Mãe que acompanha o esforço e suor diário dos seus filhos não permite que o patrimônio da família seja colocado em risco. A Petrobras, até bem pouco tempo, era um dos maiores patrimônios do povo brasileiro. Afundada em dívidas e escândalos, viu seu valor de mercado cair pela metade em menos de um ano.


Mãe também sabe ser imparcial e justa ao distribuir funções e tarefas domésticas. Mas Dilma tem deixado méritos profissionais de lado e insistido no aparelhamento partidário do Estado, de olho em interesses políticos pontuais e muitas vezes escusos. Do ponto de vista da boa gestão da máquina pública, as consequências têm sido desastrosas.


Mãe que de fato ama seus filhos investe na melhor educação para eles. Dilma, que apostou no slogan Brasil, Pátria Educadora, dificultou repasse de valores para as bolsas do FIES, cortou R$ 7 bilhões no orçamento do Ministério da Educação e bloqueou um terço dos repasses para as universidades federais. Ela também permite o desperdício de recursos do Pronatec, que tem taxa de evasão de até 60%.


Zelar ao máximo pela saúde do filho é  uma das maiores preocupações de qualquer mãe. Não é segredo para ninguém que a saúde pública está em frangalhos e que a promessa de ampliar e melhorar o sistema não passa, até agora, de palavras ao vento.


Uma mãe faz tudo para proteger os filhos nos momentos mais difíceis. Dilma aumenta impostos e corta benefícios sociais e trabalhistas num período  de recessão econômica e inflação em alta. A conta da sua desastrada política econômica recai, mais uma vez, sobre a população.


Não, ela não é mãe do povo brasileiro. A presidente Dilma pode ser, quando muito, uma daquelas madrastas de contos infantis.


(*) Senador pelo PSDB-TO


Artigo publicado no site "Diário do Poder"

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