Derrota do Planalto na CAS do Senado é sinal de alerta, não de desastre
José Aníbal
José Aníbal
22 de Junho de 2017
Para ser governo de fato, não basta ser governo de direito

Um falso dilema parece rondar muitas cabeças: o Brasil deve dar prioridade à retomada econômica, para recuperarmos os quase 10% do PIB e os milhões de empregos destruídos pela recessão iniciada em 2014, ou à refundação das bases morais da política, de modo a tornar o sistema não só mais funcional como mais representativo dos anseios da sociedade?

Precisamos de ambos: são as decisões políticas bem construídas que permitem os avanços econômicos e a prosperidade de um país, e isso só se consegue quando um governo e as forças que o apoiam tem plena ciência de suas responsabilidades.

O preço que se paga quando os mandatários de plantão deixam de fazer sua parte é bem conhecido dos brasileiros. Uma recessão como nunca antes vista na história deixou 14 milhões de desempregados, fez o PIB per capita cair quase tanto quanto na década perdida dos anos 80.

Parte disso é fruto não só da incompetência econômica travestida de "nova matriz", mas da licenciosidade que levou a um prejuízo provocado pela corrupção, segundo a Polícia Federal, de mais de R$ 150 bilhões de reais dos cofres públicos -mais de um terço desse valor, R$ 54 bilhões, desfalcados dos fundos de pensão, colocando em risco o futuro de centenas de milhares de trabalhadores dos mais diversos setores.

Um governo se faz forte e legítimo pela responsabilidade de seus atos, seja na perspectiva dos bons frutos que vão render no futuro à nação, seja nas obrigações a cumprir no presente a serviço do interesse público.

Ninguém disse que seria tarefa fácil sustentar o apoio às reformas estruturais que são tão necessárias ao Brasil, como a trabalhista e a previdenciária, assim como sabemos todos o quão árduo é convencer os políticos e os partidos a abraçarem uma reforma política minimamente condizente com os anseios da população, sem subterfúgios para preservação de nacos de poder ou coisa que o valha.

Para ser governo de fato, não basta ser governo de direito. Tampouco basta a melhor das intenções se não houver habilidade, competência e compromisso para conseguir colocá-las em vigor. Um vacilo como o que vimos nesta semana, com a rejeição por um voto do relatório da reforma trabalhista em uma das comissões do Senado, é mais um sinal de alerta do que o desastre que muitos tentaram fazer crer.

Mas não deve de forma alguma ser ignorado pelos que estão compromissados com o país. Aos que estão preocupados com outras questões que não sejam recuperar a economia nacional e reformular o sistema político simultaneamente, de forma imbricada e não excludente, o melhor é mesmo dedicar-se às outras questões.

(*) Presidente nacional do ITV, foi deputado federal, senador e presidente nacional do PSDB

Artigo publicado no site Poder360, em 22/06/2017

Comentários