"Política econômica bipolar", por Mansueto Almeida
24 de Fevereiro de 2015
O que mais tem destacado esse início de governo é uma falha de comunicação. Tem-se a impressão que se trata de um governo novo de um partido pequeno com pouca ou nenhuma experiência política, e com medidas “ainda em elaboração”.

Trata-se de um governo sem plano de governo, pois o que foi discutido ao longo da campanha eleitoral é bem diferente deste que está sendo implementado hoje. Muita gente pode achar normal e até desejável que se possa mentir ao longo de uma campanha eleitoral, mas isso tira qualquer legitimidade do que muitos chamariam de “contrato social” e legitimidade da política do governo eleito.


O que assusta no Brasil não é nem mesmo a falta de reformas, mas sim a “política econômica bipolar”, algo que é definido hoje muda em dois ou três anos de forma abrupta e modifica rapidamente preços relativos, o que compromete o planejamento de qualquer empresa. Em um país com “política econômica bipolar”, qualquer decisão de investimento correta hoje pode se tornar uma decisão equivocada em dois, três ou quatro anos. Exemplos? porque não.


Em maio de 2008, quando o governo Lula lançou o Plano de Desenvolvimento Produtivo (PDP) no auditório do BNDES, o então presidente Lula deu como exemplo de política industrial bem sucedida o desenvolvimento do setor de Etanol que seria ainda mais incentivado pelo governo.


Neste mesmo ano, o maior produto de Etanol de cana mundo, o grupo COSAN, começou sua estratégia de diversificação em logística, gás, lubrificantes, compra de imóveis rurais, etc. para reduzir sua dependência do Etanol. Se tivessem acreditado no discurso do presidente Lula, o grupo estaria hoje em uma situação muito mais vulnerável, pois depois de três anos desse discurso o Brasil começou uma política de controle do preço da gasolina que prejudicou a rentabilidade do setor de Etanol, algo considerado “normal” para muita gente do governo que argumentava que os produtores de Etanol deveriam se preocupar menos com o preço da gasolina e mais com a redução de custos.


Em 2013, a presidente Dilma garantiu em pronunciamento em rede nacional que o Brasil teria oferta de energia abundante e barata. Quem acreditou no que disse a presidente simplesmente quebrou a cara. Se uma empresa de alumínio tivesse acreditado na promessa da presidente e expandido o investimento estaria hoje com sérios problemas de custo.


O setor de educação superior acreditou que o governo, que estabeleceu uma nova formula para o crédito educativo, o FIES,  não alteraria as regras de forma abrupta, afinal, como falavam representantes do governo: “este é um programa bom para “deselitizar” o ensino superior”. Quando alguém de bom senso falava que o programa merecia um maior controle e o estabelecimento de alguns critérios de qualidade para concessão do crédito era taxado de “inimigo da educação”. Novamente, quem acreditou que o programa não mudaria quebrou a cara, ainda mais porque as mudanças foram bruscas e não deu tempo aos institutos de ensino superior se planejarem para as mudanças.


Onde estamos agora? No meio dessa “política econômica bipolar”. O empresário pode hoje tomar uma decisão acreditando que daqui para frente os incentivos setoriais serão cada vez menores, que não haverá políticas de subsídios específicas para um setor, que o governo diminuirá a atuação dos bancos públicos e buscará maior integração comercial com o resto do mundo. Em três ou quatro anos ele poderá notar que essas práticas não mudaram, apesar da boa vontade do nosso ministro da fazenda.


Assim, antes de tomar uma decisão baseado no que acontecerá ao longo dos próximos dez anos, o empresário vai esperar para saber se a característica bipolar da nossa política econômica pelo menos está devidamente controlada. Hoje, é difícil acreditar que a mudança foi para valer. Vamos ter que esperar para ver. A propósito, uma das características mais marcantes de países com “política econômica bipolar” é a constante mudança de regras. Isso é terrível para os projetos de investimento de longo prazo.

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