"O fundo do poço ainda está longe", por Alberto Goldman
22 de Junho de 2015
É com angústia que acompanhamos, todos os dias, as notícias sobre a economia nacional e sobre os mais diversos setores da vida brasileira que impactam a todos nós.
Ainda que tudo que acontece tenha sido, de uma certa forma, previsto e anunciado durante a última campanha eleitoral, é desolador perceber-se que o quadro é muito mais grave e crítico do que se supunha e se dizia.  Afinal não está em jogo, como prioridade, a certificação do que já anunciávamos.  Isso importa menos, é só uma carta na disputa política.  Prioritária é a vida de milhões de brasileiros que dependem para viver de empregos, salários e um governo que possa atender às demandas das suas necessidades vitais.
Não há, pois, em nossa manifestação, qualquer ponta de alegria, de satisfação, por acertarmos nas nossas análises sobre o passado e sobre o duro futuro a ser enfrentado em nosso país.  Era preferível estarmos errados e podermos encontrar o nosso caminho adequado na busca de um discurso para os próximos embates eleitorais.
Não chegamos, infelizmente, ao fundo do poço.  O país vai de mal a pior, e piorando a cada momento.  O mercado formal de empregos registrou em maio o pior índice dos últimos 23 anos.  O mês fechou com resultado negativo de 115 mil vagas, enquanto em maio de 2014 haviam sido criadas 59 mil vagas.   No acumulado do ano de 2015 já foram fechadas 254 mil vagas, que é o pior resultado desde 2002.  O resultado é dramático na indústria de transformação, que é o motor de qualquer economia pujante: foram fechadas 61 mil vagas.
Já em abril o emprego na indústria apontou uma queda de 5,4% na comparação com igual mês de 2014.  São 43 meses de queda ininterrupta.
A inflação, a cada mês, se mostra mais forte.  Anualizada se aproxima de 9% ao ano.  Ela está corroendo os ganhos dos trabalhadores e, com isso a folha de pagamentos da indústria, em valores reais, vem registrando queda, aliás desde janeiro de 2014.  O índice de atividade da economia, o IBC-Br, que o Banco Central divulga mensalmente, mostrou em abril em relação a março uma retração de 0,84%, atingindo o menor patamar em 3 anos e acumulando perdas de 2,23% nos 4 meses do ano.
Estoques altos na indústria, baixos índices de confiança, piora do mercado de trabalho, inflação crescente, tudo isso leva os economistas a estimar que o PIB caia 2% em 2015.  Como o crescimento da população é um índice que se aproxima de 1% ao ano, a queda do PIB per capita estará próxima a 3%.  A expectativa é que em 2016 o crescimento do PIB seja 0%.  Ou seja, o Brasil não parou, anda para trás.
Além de tudo isso, o que se observa na área política/econômica – e policial – não anima qualquer previsão de melhora do quadro econômico: grandes empresários processados por corrupção, investimentos públicos restringidos pela questão fiscal, investimentos privados represados pela insegurança do quadro econômico, programas governamentais que não saem do papel pela incrível incapacidade de gestão do governo federal.  E o Congresso Nacional, sob a liderança do PMDB aliado da Dilma fazendo as maiores estripulias possíveis.
As grandes dificuldades que se apresentam levaram a credibilidade da presidente, sob ameaça de processos judiciais e políticos em várias frentes, à níveis  (baixos) nunca imaginados, o que alimenta a crise e é por ela alimentada.  Um circulo vicioso.
Não se vê ainda uma luz no fim do túnel, ou o fundo do poço.  O quadro ainda deve piorar, antes que haja uma estabilização da situação e se possa almejar voltar a crescer.
O fracasso da administração petista e as suas consequências são um desastre para o país e causaram danos profundos e duradouros, maiores do que se imaginava.
O estelionato eleitoral que ela pratica, sem qualquer reconhecimento de seus erros e mentiras é, de fato, necessário.  Mas nem assim se pode ter muita ilusão de que vamos sair dessa em pouco tempo.  Mesmo com os custos imensos que o nosso povo já está pagando.
(*) Ex-deputado federal, ex-governador de São Paulo
Publicado  no Blog do Goldman

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