"O Brasil e o mundo", por Antonio Anastasia
15 de Junho de 2015
Nesta semana, o jornalista William Waack compareceu à Comissão de Relações Exteriores do Senado e fez uma apresentação primorosa sobre a atual inserção brasileira no contexto internacional. E, lamentavelmente, o seu relato bem demonstra o desprestígio do Brasil, neste momento, no cenário mais relevante das nações, em decorrência da equivocada política de relações exteriores adotada pelo atual governo federal.
Conforme o seu depoimento, pleno de exemplos, e corroborado pelos diversos episódios que todos nós acompanhamos, a posição do Brasil, que era de reconhecimento e liderança emergentes, passou a ser considerada periférica, em razão de alinhamentos pouco relevantes no panorama internacional.
Deste modo, nada pode justificar a reiterada teimosia do governo federal em apoiar, de modo ostensivo, o regime ditatorial na Venezuela, que leva o país à beira da guerra civil, com infrações recorrentes dos direitos humanos e prisões arbitrárias dos líderes da oposição.
O episódio da inclusão da Venezuela no Mercosul, aproveitando a “suspensão” imposta ao Paraguai, sem permitir a manifestação do Senado da nação guarani, bem ilustra a pequenez de nossa política externa no que se refere à Venezuela e à obsessão em agradar o regime chavista.
Por outro lado, a recusa brasileira em condenar, de modo enfático, as aberrações do chamado Estado Islâmico, que expõe para todo o mundo sua política de decapitações, torturas, genocídio e destruição do patrimônio cultural da humanidade, também ilustra, de modo melancólico, a inércia brasileira em se aliar às nações comprometidas no esforço de devolver a paz e a segurança àquela região do mundo.
A compulsão em abrir embaixadas pelo mundo afora, com o único propósito de alcançar a inclusão, como membro permanente, no Conselho de Segurança da ONU, resultou em total fracasso. As verbas do Itamaraty, já naturalmente contidas em razão da crise financeira do governo, ficaram sobrecarregadas com estes novos postos…e agora, falta tudo em todos os lugares, para o mínimo funcionamento de nossas representações no exterior!
Ademais, as cláusulas do Mercosul têm impedido uma parceria econômica mais proveitosa para o Brasil, quer com os Estados Unidos, quer com a União Europeia, sem se perceber uma ação de nosso governo para superar este entrave.
O Brasil não pode se contentar com um papel periférico no mundo. Sua posição geográfica, seus recursos naturais, sua posição econômica e sua trajetória pacífica, por si só, justificam uma ação de destaque no cenário internacional.
Falta uma estratégia correta para esta política. E nós temos o instrumento: os excelentes quadros do Itamaraty, que bem representam a excepcional qualificação do servidor brasileiro e que realizam verdadeiros milagres com o pouco que lhes é fornecido.
O que não temos é governo comprometido com uma política externa adequada ao século XXI.
 
(*) Senador por Minas Gerais, ex-governador do Estado.
Artigo publicado no jornal "Hoje em Dia", em 15/06/2015

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