"O ajuste fiscal e o combate à inflação: o que dizer?", por Mansueto Almeida
11 de Novembro de 2014

Algumas pessoas, em geral estúpidas, acham que o fato de você não apoiar o governo significa que a pessoa torce sempre para “o quanto pior melhor”. Por favor, me retirem deste grupo.


Independentemente de apoiar ou não o governo, gostaria muito de ver a presidente Dilma nos surpreender, montar uma boa equipe econômica e conseguir negociar um pacote de reformas que aumentasse a confiança dos empresários e recuperasse o superávit primário do setor público.


No entanto, o governo está emitindo sucessivos sinais equivocados para o mercado, o que aumenta cada vez mais o custo de ajuste. Infelizmente, por enquanto, não tenho uma única noticia positiva para dar para as pessoas que converso e que visitam o Brasil, pois o governo está batendo cabeça. Há vários erros.


(1) a novela de quem será o ministro da fazenda já deveria ter sido resolvida. Os nomes que circulam nos jornais e a relutância da presidente definir quem quer que seja passa a impressão de uma disputa entre ela e o ex-presidente Lula. Nada bom para acalmar os mercados;


(2) O governo vem falando de um ajuste fiscal duríssimo para 2015 sem aumento de carga tributária e apenas com cortes de gasto, mas sem prejudicar o investimento e o social. Qualquer economista com conhecimento básico de finanças públicas sabe que isto não é possível. O governo não deveria prometer ajuste “duríssimo” para 2015 porque não poderá entregar;


(3) O governo deveria se comprometer com a recuperação do primário maior para 2016 e 2017 e, ao longo de 2015, fazer o que for possível em conjunto com uma agenda positiva de reformas estruturais junto ao Congresso. Mas para ganhar a confiança do mercado precisaria de uma equipe econômica muito boa, convicção para negociar reformas estruturais com o Congresso e administrar de forma exemplar a sua base aliada. O problema do presidencialismo de coalizão é quando o presidente é um mau gestor de sua base;


(4) Governo precisa de um bom portavoz na área econômica que pode ser o novo ministro. Mantega e Mercadante dão sinais contraditórios que aumentam, desnecessariamente, o nervosismo do mercado. Nada contra os dois que fazem o melhor que podem para ajudar a presidente, mas não estamos mais em campanha eleitoral e já deveriam falar dos detalhes do que pretendem fazer. Falar em ajuste fiscal com a manutenção do emprego e da renda não significa coisa alguma. A propósito, não entendo porque o ministro Mantega ainda não se desligou do governo. Será que quer ficar?


(5) O PT e seus economistas simpatizantes atrapalham enormemente a tarefa do ajuste econômico do governo. Aqui a única saída é pedir ajuda ao presidente Lula para controlar o PT, algo que só ele consegue fazer. A resolução do PT foi um convite ao acirramento dos ânimos e, hoje, circulou na internet um manifesto de economistas por desenvolvimento com inclusão social (clique aqui), no qual defendem a manutenção do crescimento dos gastos públicos, juros reais baixos e se mostram contra aumento do superávit primário. É uma visão alternativa que a meu ver é totalmente equivocada e dificulta o trabalho do governo. O mais irônico é que a grande maioria deles votou na presidente confiando que não haveria necessidade de ajuste.


(6) Por fim, como a eleição já acabou, chegou a hora de o governo apresentar um plano econômico muito claro do que pretende fazer. Ele pode decidir que não vai fazer ajuste algum e xingar o mercado financeiro. Seria uma loucura, mas se esse for o plano que então anuncie. Mas se pretender corrigir o rumo equivocado e porque não dizer desastroso de sua política econômica, mostre rapidamente de que forma fará isso. Mas e se o ” tempo” do governo for diferente do “tempo” do mercado? Neste caso nós pagaremos o pato, pois precisamos muito das verdinhas que vêm de fora.


A impressão que tenho é que o governo se preparou muito para as eleições e pouco para o pós-eleição. Se não corrigir rapidamente esta falha, pagará muito caro por subestimar o tamanho do ajuste necessário e correrá o risco de, em menos de um ano, se transformar em um governo “pato manco”, que ficará reagindo à crises e aos movimentos do mercado.


O que fará o governo?


(Artigo publicado no Blog do Mansueto Almeida)

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