"Nunca antes neste país", por José Roberto Mendonça de Barros
10 de Setembro de 2015
Nos últimos dias, três coisas ficaram claras:
1) A China fez vários lances desastrados na política econômica, mas não deverá enfrentar, neste momento, uma descontinuidade ou crise no crescimento;
2) O crescimento americano é mesmo sólido, como demonstrou o resultado do segundo trimestre do ano;
3) A presidente Dilma teve uma recaída no Dilma 1, o que promete graves consequências.
Comecemos pela China: no dia 11 de agosto, ela surpreendeu o mundo ao permitir uma flutuação de 1,9% em sua moeda, algo que nunca havia ocorrido antes. Imediatamente, todos os participantes dos mercados ficaram com dúvidas a respeito do verdadeiro objetivo das autoridades chinesas: seria uma volta aos velhos tempos da guerra cambial ou seria apenas a tentativa de caminhar na direção de um câmbio mais flexível?
Pode-se dizer, hoje, que não é o caso da guerra cambial, mas da busca de mais flexibilidade. Naturalmente, quando se permite mais flutuação no câmbio de uma economia, cujo crescimento está enfraquecendo, o resultado é alguma desvalorização da moeda, o que de fato ocorreu. Quase um mês após o movimento inicial, o yuan está acumulando apenas 2,4% de queda (dado do dia 2). É certo que o BC chinês foi algo desastrado, mas ninguém mais tem dúvidas de que o que se busca é tornar o yuan uma moeda mais internacional e, se possível, incluída pelo FMI nos Direitos Especiais de Saque, ao lado do dólar, do euro, da libra e do iene. Entretanto, também se percebe que a nova direção chinesa ainda enfrenta resistência na máquina partidária à sua tentativa de controlar a situação, bem como o grande volume de crédito e a especulação na bolsa tornam possível a aparição de problemas maiores na manutenção do crescimento mais adiante.
De qualquer forma, o movimento na China enfraqueceu os preços de commodities, especialmente, na área de minérios e metais, cujas cotações não têm horizonte de se recuperar, afetando os setores de mineração e siderurgia brasileiros de forma pesada. Por outro lado, a mudança nos hábitos de higiene dos chineses garantem um horizonte bastante positivo para a demanda de celulose, cuja melhora nos preços refletem esse fato. Na verdade, toda a cadeia da madeira, incluindo placas e móveis, está recuperando preços e mercados internacionais. A demanda de outros produtos agrícolas seguirá boa, fazendo com que os preços de grãos em reais permaneçam relativamente elevados. Finalmente, os preços do petróleo devem continuar baixos, fundamentalmente porque o excesso de produção continua a se elevar. Isso é péssimo para a Petrobrás.
Na semana passada, saiu o crescimento do segundo trimestre do PIB nos Estados Unidos e o resultado foi excelente: 3,7% anualizado. O investimento privado e as exportações se mostraram vigorosos avançando a uma taxa de 5,2%. Os gastos do governo continuam comedidos, o que sugere uma possível redução no déficit e na dívida pública em relação ao PIB. Esses números, mais a declaração do dr. Stanley Fischer, voltaram a pôr no rol das possibilidades uma elevação próxima da taxa de juros, o que coloca mais uma leve pressão na desvalorização do real.
Entretanto, a coisa mais importante destes últimos dias é que a presidente da República mostra uma sólida recaída na política heterodoxa de seu primeiro mandato. Ordenou aos bancos públicos que fizessem crédito barato aos setores de sempre (ganha meia bala quem descobrir qual foi o primeiro beneficiário dessa política), incluiu na pauta a recriação da CPMF e desistiu de levá-la adiante apenas três dias depois, após a avalanche esperada de críticas e, para completar a nova rota de ações, enviou ao Congresso um Orçamento com um grande déficit. Mais do que tudo, selou a dispensa do auxílio do vice-presidente na coordenação política e passou a conversar exclusivamente com o chefe da Casa Civil e o ministro do Planejamento, diminuindo ostensivamente o papel do ministro da Fazenda. Ao tomar essa atitude, a presidente jogou fora a boia que lhe foi estendida por líderes do setor privado e retomou o curso de ação do seu primeiro mandato, o que deve ter graves consequências para o País.
Para ter uma ideia do grau de distância das autoridades da realidade, o ministro do Planejamento declarou em entrevista publicada no dia 2 que “a fase mais crítica da recessão já passou”, no mesmo dia em que saiu a produção industrial do mês de julho. Segundo o IBGE, o setor recuou, ante o mesmo mês do ano passado, a bagatela de 8,9% (por conta da Copa do Mundo, a produção industrial de julho de 2014 já tinha sido especialmente fraca, o que torna os dados ainda mais negativos). O setor de bens duráveis de consumo recuou quase 14% e o setor de bens de capital quase 28%!
É preciso estar muito distraído para achar que o pior da recessão já passou. Lembro duas coisas que ainda vão perturbar o crescimento. A primeira é que só a partir de setembro a inadimplência do consumidor vai crescer de forma expressiva. Isso ocorre porque quando da dispensa, o trabalhador recebe a multa do FGTS, os outros direitos e ainda pode se beneficiar do seguro-desemprego por alguns meses. Como consequência, se não se recolocar, a família começa a ter dificuldades para manter as contas em dia a partir do sexto mês do desemprego, que é o que vai começar acontecer agora. A segunda coisa a perturbar a atividade é que a queda de vendas, a elevação dos juros e a contração do crédito vão, inevitavelmente, produzir insolvências entre as empresas. Muitos casos de companhias grandes ocorrerão até o fim do ano, tornando mais incerto o ambiente de negócios.
Lamentavelmente, sou obrigado a repetir o título de meu último artigo neste jornal: a situação econômica vai piorar ainda mais.
Nunca antes neste País as coisas andaram tão atrapalhadas e incertas. O governo corre o risco de bater no muro.
(*) Economista
Artigo publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", em 08/09/2015

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