"Inflação de 2.477% ao ano: nunca mais!", por Barjas Negri
10 de Março de 2014
Em 1992, a inflação no Brasil, medida pelo IPCA, foi de 1.119% e, em 1993, alcançou 2.477%. Isso mesmo: 2.477%, o que deu uma média de 31,1% ao mês. Esse era o quadro da economia brasileira após o governo Collor e durante o governo Itamar Franco. Os preços das mercadorias e serviços subiam diariamente e corroíam os salários dos trabalhadores. Uma cena marcante nesse período era o fato de os trabalhadores correrem às compras assim que recebiam seus salários, pois no dia seguinte os preços já poderiam ter subido. Naquela época, a indústria das máquinas de remarcar preços era uma das que mais cresciam.
Para o enfretamento dessa grave questão, o ministro da Fazenda da época, Fernando Henrique Cardoso, montou uma equipe de bons economistas, com a função de apresentar um plano capaz de reduzir a inflação para níveis compatíveis com a importância do Brasil. Assim, em 27 de fevereiro de 1994, foi editada a Medida Provisória nº 434, que introduziu a Unidade Real de Valor – URV, uma moeda virtual para servir como padrão de valor monetário, que perdurou até 1º de julho daquele ano, completando-se a reforma monetária, colocando o Real em circulação.
Esse plano de estabilização econômica veio acompanhado de outras medidas importantes, já durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que exigiram, por alguns anos, muitos sacrifícios de todos, para não incorrer nos equívocos dos planos anteriores, que não haviam dado certo. Ainda na fase de preparação, o Plano de Ação Imediata rompeu com décadas de descontrole bancário e viabilizou a administração da expansão creditícia e monetária, típicas da mudança do patamar inflacionário, além de garantir a entrada de recursos externos.
Além disso, foi necessária a ampliação da carga tributária para gerar superávit primário, mantendo os níveis de confiança dos credores do Estado em relação à dívida/PIB; a redução de gastos correntes do governo para incentivar os investimentos; a aceleração do processo de privatização de empresas estatais para melhorar a eficiência e competitividade da economia; a aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, impondo limite a gastos públicos estaduais e municipais, entre outras medidas. Tudo isso para estabilizar a economia, reduzir drasticamente a inflação e criar condições de crescimento do PIB ao longo dos anos seguintes.
O resultado dessas medidas pode melhor ser avaliado ao longo dos últimos 20 anos: a) no primeiro semestre de 1994, a inflação foi de 757% (só em junho, atingiu o patamar de 47,43%) e, no acumulado de seis meses do segundo semestre, caiu para 18,56%; b) nos 12 meses de 1995, a inflação despencou rapidamente para 22,4% e, a partir daí, só em um único ano, situou-se num patamar ligeiramente superior a 10% e, em todos os anos, a inflação ficou muito baixa, atingindo em 1998 o seu menor índice da história (1,6%); e c) a economia foi encontrando condições gradativas para crescer e apenas em 1998/99, em função de várias crises internacionais, o crescimento do PIB situou-se próximo de zero, o que veio a se repetir em 2009, com uma nova crise internacional, quando o crescimento do PIB foi negativo. Em todos os demais 16 anos, tivemos crescimentos positivos, que fizeram com que o PIB brasileiro crescesse em termos reais mais de 67% no período 1995/2013.
Atualmente, considera-se que a inflação brasileira, de 5,9% em 2013, está elevada para os padrões internacionais e cobra-se mais controle por parte das autoridades federais. Ocorre que quem nasceu em 1994 tem hoje 20 anos e, portanto, não tem a memória inflacionária pré-Plano Real de 31,1% ao mês em 1993, ou 47,43% em junho de 1994, como vimos anteriormente. Portanto, a geração que hoje tem menos de 20 anos está protegida do processo inflacionário elevado ou, até mesmo, da hiper ou superinflação ocorrida no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Nessa faixa etária de até 20 anos, temos 64 milhões de crianças e jovens, o que representa um terço da população brasileira.
A essa nova geração, o Plano Real deixou uma herança positiva de baixa inflação e de crescimento da economia e do emprego. Não podemos perder essas conquistas. Não é porque a inflação está relativamente baixa que o Brasil deve ficar desatento, pois parte da inflação está contida artificialmente com o controle de preços administrados pelo governo federal, como o de combustível e energia elétrica. Trata-se de inflação reprimida, que não aparece nas estatísticas, mas que poderá emergir a qualquer momento. De qualquer maneira, a população já está pagando o preço dessa política, seja por meio dos impostos, seja pela redução dos investimentos da Petrobrás.
Deve ficar claro que as ameaças atuais de aumento da inflação podem exigir do Governo Federal políticas de ajuste que comprometerão o crescimento da economia e do emprego. O que se espera é que o governo atue firmemente na manutenção dos fundamentos do Plano Real, para que não tenhamos que submeter os nossos jovens e adultos, principalmente os de baixa renda, que são a maioria da população, às consequências do descontrole inflacionário, baixo crescimento da economia e do emprego e perda real de poder aquisitivo. Ao completar 20 anos, desejamos longa vida ao Plano Real.

BARJAS NEGRI é economista e foi prefeito de Piracicaba (2005-2012).

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