"Em quem você acredita?", por Antonio Anastasia
27 de Julho de 2015
Parece uma pergunta simples. Mas quando muitos param para pensar, a interrogação fica muito maior do que uma simples pontuação em fim de frase. Em quem você acredita? No mundo contemporâneo, enganar e ser enganado parece ter se tornado algo natural, coisa do dia a dia.

Desconfia-se de quem está a pedir ajuda ou informação na rua porque bandidos utilizam-se da boa-fé das pessoas para assaltar. Desconfia-se do vizinho, das relações no trabalho e na família, dos filhos, dos pais, dos irmãos. Desconfia-se…

E passamos a viver em uma sociedade isolada, desacreditada, sem confiança. Triste.

Na política
O mesmo processo ocorre hoje na política. Os reiterados casos de corrupção tiram da sociedade muito mais que valores monetários. Tiram a própria capacidade de confiar, a esperança e a expectativa de que as coisas podem melhorar. Incute no imaginário popular a famosa e triste expressão ‘são todos iguais’.

Ao mesmo tempo, não existe confiança intergovernamental. A União desconfia dos estados. Os estados desconfiam dos municípios. Os municípios, uns dos outros nos seus consórcios.
Durante o tempo em que estive à frente do governo de Minas lançamos um grande projeto de asfaltamento financiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Houve um momento em que todas as obras que contavam com esse financiamento pararam porque o BNDES passou a exigir a comprovação da propriedade pelo Estado das estradas de terra centenárias que existem pelo interior de Minas. Sem o cartório declarar a propriedade, o BNDES se recusava a fazer o financiamento. Por quê? Porque não há confiança.

Desaparecendo a velha noção romana de fidúcia, passamos a demorar mais e mais. E toda demora significa atraso, custo, recursos desperdiçados. E o descrédito com a população aumenta ainda mais porque ela não vê a contento suas demandas solucionadas.

Tudo isso leva a um círculo vicioso extremamente nocivo. Desconfiada e desacreditada, a população passa cada vez menos a acompanhar o processo político. Acompanhando menos, os cidadãos não conseguem separar quais são os políticos bons ou ruins. Ao contrário, generaliza como se todos fossem iguais. Sem um acompanhamento rigoroso por parte da sociedade, aqueles agentes públicos mal-intencionados sentem-se mais livres para fazer o que bem entender, dissociando-se dos reais interesses da sociedade. A corrupção, dessa forma, tende a aumentar. Aumenta-se, com isso, ainda mais a desconfiança das pessoas. E o resultado é o que estamos vendo hoje no Brasil.

A nós, agentes políticos, urge resgatarmos a confiança popular. E isso só ocorrerá dando atenção real aos interesses públicos e solucionando de maneira muito pragmática a demanda por serviços públicos de qualidade. É o que tenho tentado fazer. Da mesma forma, isso só será possível com uma participação ativa da sociedade, cobrando, analisando, separando o joio do trigo. Nesse sentido, engajar-se é essencial. Por mais que a esperança se esvaia ligeiramente. É preciso força e luta. É preciso confiar e acreditar.

(*) Senador pelo PSDB-MG

Artigo publicado no jornal "Hoje em Dia", em 26/07/2015

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