"Dilma, suas fantasias e seus fantasmas", por Alberto Goldman
06 de Janeiro de 2015

Os autos elogios e a falta de autocrítica no discurso de posse de Dilma para o novo mandato já eram esperados. Assim foi a afirmação de que com o trabalho de Lula, continuado por ela, tivemos a primeira geração de brasileiros que não vivenciou a tragédia da fome, a ascensão dos brasileiros à classe média, a conquista de empregos com carteira assinada, a valorização do salário mínimo, o acesso à casa própria, ao ensino técnico, às universidades, o longo período sem crises institucionais, o respeito às instituições, a apuração e punição à corrupção, a conquista dos direitos básicos a qualquer cidadão, o direito de trabalhar, alimentar e educar a família.


Esse fora o diferencial dos seus governos, tudo começa com eles, e por isso o povo concluiu que eles poderiam fazer muito mais e melhor. Esse é o limite da capacidade de avaliação de Dilma Rousseff.


Sem nenhum pejo ela reafirma sua convicção sobre o valor da estabilidade econômica, o controle da inflação, o imperativo da disciplina fiscal e a necessidade de merecer a confiança dos trabalhadores e dos empresários, ainda que tenha feito, conscientemente, o contrário.


Nenhuma palavra sobre o baixo crescimento econômico, o definhamento da indústria nacional, a inflação sempre acima da meta objetivada, o baixo investimento que impede o crescimento, a baixa produtividade da economia, o temor da participação privada na economia, o descontrole das contas públicas, as relações de troca com o exterior com resultados negativos, a baixa criação de novos empregos, o desalento dos investidores nacionais e estrangeiros, a intervenção crescente nas atividades privadas, a contenção artificial das tarifas públicas, a carência de mão de obra especializada, a baixa realização dos investimentos públicos, transformando a logística de transportes em um entrave ao crescimento, a saúde com uma das piores avalições da história, os índices de criminalidade que teimam em se manter ou crescer, o desrespeito e a intervenção nas agências reguladoras tomadas de assalto, assim como as demais instituições públicas, pelo partido da presidente e por seus aliados.


Ela [Dilma] descobriu, agora, após 12 anos de poder, que “só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero” e assim lança o lema “Brasil, pátria educadora”. Um slogan apenas, fluido como tudo que tem feito. E vem com a conversa de que mais recursos serão destinados à Educação e a panaceia são os royalties do petróleo. Mais uma enganação, pois esses recursos não são tão expressivos e não tem prazo para se realizarem.


Outra descoberta retumbante: “a corrupção deve ser extirpada”. E isso ela o fará com a continuidade da autonomia da Polícia Federal e a independência do Ministério Público como se isso já não fosse assegurado pela Constituição. E diz que vai acentuar essa luta pela apresentação de um “pacote” de medidas que enviará ao Congresso Nacional.


Mas o ápice falta de pudor e irresponsabilidade no exercício do papel de presidente é a seguinte declaração no texto do pronunciamento: “Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobrás de predadores internos e de seus inimigos externos”.


Ora, os predadores internos são os dirigentes que eles mesmos, Lula e Dilma, colocaram na empresa para dela sugar recursos com a finalidade de manter o poder e garantir a sua continuidade. E os seus inimigos externos são quem? Serão os governos árabes que jogaram o preço do petróleo para baixo para inviabilizar a exploração em vários países ( pre sal em águas profundas no Brasil, xisto betuminoso nos EUA, outras alternativas energéticas )? Ou será o governo Obama que através das empresas petrolíferas quer engolir a Petrobrás ( vai ver que Pasadena faz parte do complô ). Ou as demais multinacionais assustadas com a “eficiência” da Petrobrás desejam destruí-la? Ou os franceses, os ingleses, os italianos? Ou serão os norte coreanos (eu não confio naquele ditadorzinho baixinho e gordinho)?


Afinal a senhora presidente deve dizer quem são os inimigos externos da Petrobras.


Não será um discurso um do que vai salvá-la. Copiando Nelson Rodrigues, bonitinho, mas ordinário. Hoje eu a assisti, na posse, encurralada por Michel Temer, Renan Calheiros e Henrique Eduardo Alves. Com esse time não vai a lugar algum.


(*) Vice-presidente do PSDB Nacional


Artigo publicado no Blog do Goldman

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