"Como educar o povo sem hábitos culturais?", por Raul Christiano
28 de Abril de 2014
O descompasso entre a oferta crescente de políticas culturais e a baixa frequência de públicos, justificou a pesquisa realizada pelo SESC, em parceria com a Fundação Perseu Abramo, em 2013, sobre os hábitos culturais da população brasileira. Os resultados são desalentadores, pelo valor que é preciso atribuir à Cultura na formação da personalidade humana, desde a fecundação e pela vida inteira, principalmente quando se busca meios e a continuidade de políticas públicas bem sucedidas para melhorar a qualidade da educação pública no Brasil, em todos os níveis.
Conforme os números dessa pesquisa, 61% nunca haviam assistido a uma peça teatral; 89% nunca assistiram a um concerto de ópera ou música clássica; 75%, dança; e 71%, exposições de pintura e escultura em museus. Sobre o tempo livre de segunda a sexta-feira, 58% dos entrevistados preferem se dedicar a alguma atividade em casa, chegando a 34% nos finais de semana; nos sábados e domingos, 34% buscam atividades culturais e 9% dedicam-se a práticas religiosas.
Realizada no mês de setembro de 2013, em 139 cidades de 25 estados brasileiros, a pesquisa teve um questionário respondido por 2.400 pessoas com mais de 16 anos e moradoras de centros urbanizados. E ficou evidente que os hábitos culturais são muito pequenos, correspondendo com os baixos índices obtidos pela Educação no Brasil.
Durante as avaliações institucionais do ensino, Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o país continua desigual na comparação entre o desempenho dos estudantes nos estados da federação e entre os piores países em Educação. O Brasil ocupa o 58.º lugar entre os 65 países que participaram em 2012 do Pisa.
Enquanto os alunos brasileiros saíram de 356 pontos, em matemática, em 2003, para 391 pontos em 2012, a nota de leitura melhorou apenas 1,2 pontos por ano. Esse aspecto também pode ser constatado na pesquisa do SESC, em relação à literatura: a maior parte, 58%, não leu nenhum livro e, entre os que leram, 42%, registraram uma média de 1,2 livro durante os seis meses antes da consulta.
É patente que a falta de hábito cultural demonstra que a sua importância para o desenvolvimento do país como um todo é desconsiderado, comprometendo diretamente a evolução da Educação, da ética, cidadania e dos meios de produção e geração de renda.
Não creio que a causa maior sejam os orçamentos públicos para o setor da Cultura, historicamente menores, nas três esferas de governo (municipal, estadual e federal), sujeitando as oportunidades de políticas culturais e a formação de público / plateias, às leis de incentivo e ao grau de mobilização dos movimentos de artistas independentes locais, que nem sempre contam com políticas de divulgação e acessibilidade mais eficientes.
O Vale-Cultura, criado recentemente pelo Ministério da Cultura, pode ser uma alternativa para suprir o poder de compra de ingressos, CDs e livros pelos trabalhadores, mas o Estado não pode se desincumbir do seu papel de provedor das atividades artísticas e culturais para além dos centros urbanizados, garantindo o livre acesso às apresentações e também ao conhecimento e formação artísticas.
Entendo que o Brasil capilarizará a sua perspectiva de desenvolvimento, com uma Educação melhor, com hábitos culturais normais a exemplo do que acontece em todo o Mundo.

(*) escritor, professor, jornalista e Secretário Municipal de Cultura da Prefeitura de Santos, SP. Email: raul.christiano@gmail.com

Comentários