"Ajuste fiscal, bancos públicos e o falso consenso", por Mansueto Almeida
17 de Dezembro de 2014

Há cerca de dois anos estava em uma reunião com um grupo de empresários em São Paulo e, nesta reunião, vários empresários elogiavam o crescimento do BNDES e as várias linhas de crédito subsidiadas do Banco. Até mesmo um secretário de fazenda de um estado da federação presente elogiou a celeridade do banco para liberar recursos para o seu estado.


No final da reunião pedi a palavra e disse: “se todos aqui estão contentes com o crescimento dos empréstimos do BNDES por que vocês não fazem uma proposta para o governo, sugerindo a criação de um novo imposto ou aumento do PIS/PASEP para que o BNDES tenha mais recursos para emprestar de forma sustentável”?


Todos olharam para mim com a expressão assustada. Moral da história. Muitas pessoas que elogiaram a atuação do BNDES nos últimos anos não estavam dispostos a discutir a fonte de recursos para o Banco. Queriam um BNDES mais ativo, mas não se importavam que a contrapartida desse ativismo fosse um forte crescimento da divida pública bruta.


Hoje vejo nos jornais algumas dessas pessoas defendo um maior rigor fiscal. As mesmas pessoas que há pouco mais de dois anos elogiavam a forte expansão do BNDES com aumento da dívida pública bruta. Assim, acho difícil que as pessoas que não se importavam com a divida ontem aceitem pagar mais juros, em 2015, por que precisaremos fazer um maior esforço fiscal.


A extensão do ajuste fiscal esperado será inversamente proporcional as criticas e xingamento que a equipe econômica receberá ao longo do próximo ano. Não existe “boa vontade” quando se trata de corte de despesas. Sempre alguns grupos serão prejudicados mais do que outros e esses grupos usarão seu poder de lobby para reagir. O quase consenso que hoje existe sobre a necessidade de ajuste fiscal terminará tão logo a primeira medida de ajuste seja anunciada pela nova equipe econômica.


Mas acho que chegou o momento de sermos adultos e encararmos no Congresso Nacional esse debate da forma mais aberta possível e transparente, colocando na mesa o custo das politicas, quais grupos serão prejudicados e a relação custo benefício. Não será fácil, mas não há outra opção.


Sim, no meio do caminho a oposição tem o dever e direito de criticar o governo que há poucos meses falava que os empréstimos subsidiados eram bons para economia e que a oposição queria reduzir esses empréstimos. No fim, o governo mentiu e ele próprio fará aquilo que acusou que os seus adversários fariam: reduzir o papel dos bancos públicos e aumentar a TJLP. Para muitos, não ter dito a verdade é justificável por se tratar de uma campanha eleitoral. Para outros, isso é puro estelionato eleitoral.


A dúvida é se a racionalidade continuará ou se o marketing do João Santana, em algum momento, voltará. A grande dúvida de muita gente no mercado não é o que será feito, mas se a presidente terá sangue frio para manter o ajuste fiscal quando, em um primeiro momento, o crescimento do PIB cair ainda mais, taxa de desemprego aumentar e renda real dos trabalhadores cair.


Mas depois melhora? Sim, mas até a melhora chegar haverá um custo. O que preocupa muita gente é não saber se a presidente, que nas eleições mandou seus economistas falarem em ajuste não ortodoxo, aceitará agora um ajuste ortodoxo. Por enquanto, não dá para falar nem que sim nem que não. Se olharmos para o passado a aposta é que a presidente não terá paciência para se manter na rota de ajuste com baixo crescimento. Mas as circunstâncias agora são diferentes e muito piores.


O problema é que a grande maioria dos políticos do PT continuam o mesmo e negam erros dos últimos quatro anos. Um bom exemplo  disso são as declaração da Senadora Gleisi Hoffman (PT-PR) ontem na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal, quando além de citar dados errados e falar que a nossa divida pública bruta era de de menos de 60% do PIB, falou que o primeiro governo Dilma não fez nada de errado e adotou uma política fiscal responsável. Se é assim, por que então convidaram Joaquim Levy, que pensa o oposto de Mantega e Augustin, para o governo? o problema de muita gente do partido da presidente é este. Falam não mesmo quando dizem sim. A nova equipe econômica e a presidente Dilma terão um grande trabalho pela frente.


Artigo publicado no Blog do Mansueto

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