"A travessia que queremos", por Antonio Anastasia
27 de Agosto de 2015
Em meio a tantos problemas que ocorrem hoje no Brasil – e, de fato, eles não podem ser ignorados – bons projetos e boas práticas acabam por passar desapercebidos. Mas sempre considero que é preciso lembrá-los para que não percamos a capacidade de superação e, baseado nesses bons exemplos, façamos com que o nosso país se torne o lugar que sonhamos.

Na última semana recebi a notícia de que o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) premiou trabalho desenvolvido por Antônio Claret e Samanta Natenzon que propõe uma análise da pobreza não apenas com ausência de renda, mas a partir de suas múltiplas dimensões. Claret trabalhou na equipe de assessoria de articulação, parceria e participação social durante meu governo em Minas Gerais. O trabalho premiado se baseou em um dos principais programas que desenvolvemos, iniciado pelo governador Aécio Neves, o Travessia.

A lógica do Travessia era muito interessante. Tinha como premissa que o diagnóstico e o combate à miséria e à pobreza não podem se dar tão somente pelo fator renda. Quer dizer que não vamos mudar a condição das pessoas simplesmente porque, ao invés de receber US$ 1, elas passaram a receber US$ 1,01. Alguns organismos internacionais estabelecem que US$ 1 por dia é o que separa a pessoa da linha da pobreza. A pobreza, no entanto, não é um problema aritmético. É social. E, além da renda, envolve outros fatores, como acesso à educação, saneamento, saúde, infraestrutura, segurança.

Tendo essa visão como ponto de partida, portanto, passamos a pensar como resolver o desafio de superação da pobreza. O primeiro passo, parece óbvio, era identificar o problema. Quais são as privações? Onde elas estão?

Abarcado no Travessia, criamos o projeto Porta a Porta. Agentes do Estado iam, como o próprio nome diz, de porta em porta, inicialmente nos municípios mineiros de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM), buscando identificar as carências de cada família. Quantas pessoas vivem ali? Quantos estudam? Quantos estão empregados? Qual o nível de acesso à saúde?

Por meio desse diagnóstico, que foi sendo feito pouco a pouco, o Travessia foi ganhando projetos para combater àquelas privações. Para as casas com altos índices de evasão escolar, criamos o “Professor da Família”, para que houvesse um acompanhamento mais de perto com os alunos. Para moradias muito precárias, o “Travessia Social”, que construía instalações sanitárias, melhorando o saneamento. Para mulheres com mais idade que não tinham formação adequada e por isso estavam desempregadas, criamos o “Com Licença, vou à Luta”, para capacitação dessas senhoras de acordo com a vocação de cada região.

Buscando incentivar a participação de toda a família, criamos o “Banco Travessia”. A cada atividade cumprida por membros da casa, um dinheiro era depositado em uma conta poupança. Em três anos, uma família poderia receber até R$ 5 mil, que seriam usados para melhoria de sua casa ou para abrir um pequeno negócio, de acordo com a escolha da família. Tudo isso com o objetivo real de superar a pobreza, não apenas administrá-la. Dar ferramentas e instrumentos, agindo de maneira focal, para que as famílias mais carentes pudessem fazer essa verdadeira ‘travessia’.

(*) Senador pelo PSDB-MG.

Artigo publicado no jornal "Hoje em Dia", em 23/08/2015

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