"50 Anos do Golpe Militar", por Luiz Paulo Vellozo Lucas
04 de Abril de 2014
A defesa da democracia era um biombo tático tanto para a esquerda quanto para a direita em 1964. A revolução cubana, em 1959, radicalizou as tensões da guerra fria na América Latina, e no Brasil o PCB foi para a clandestinidade. O governo de João Goulart não estava à altura dos desafios do seu tempo e alimentava com ações e omissões a escalada da radicalização politica e da desorganização do ambiente econômico. Estavam criadas as condições para o golpe militar.
Por vinte anos, o poder foi exercido pelos chefes militares e seus prepostos. A única atividade politica que interessava de fato dizia respeito à luta interna nas forças armadas, lida no Almanaque do Exercito, que indicava os generais que deveriam subir e ganhar mais estrelas no uniforme, e aqueles que seriam “caroneados” e ficariam para trás. Saber quem seria o comandante do primeiro exército, com sede no Rio de Janeiro, era muito mais importante do que conhecer quem seria governador. Os políticos dedicavam-se a disputar entre si quem tinha mais contatos e prestígio nos altos escalões militares, onde aconteciam as decisões sobre cargos e verbas.
Os militares consideravam-se monopolistas do patriotismo e a atividade política dos civis ou era sinônimo de subversão comunista ou de corrupção, portanto, em ambas as situações, casos de polícia. Na economia prevalecia a ideia que o regime autoritário ofereceria melhores condições para os investimentos, calma e ordem em lugar da bagunça e da imprevisibilidade dos tempos de Jango.
O legado dos vinte anos de regime militar foi a hiperinflação indexada e moeda nacional desmoralizada, estrutura produtiva estatizada - articulada por relações de privilégios com o setor privado - inexistência quase total de mecanismos e instituições de mercado capazes de organizar um ambiente competitivo saudável e equilibrado. Foram dez anos e seis planos de estabilização frustrados até que o Plano Real conseguisse estabelecer as bases de uma economia de mercado estável e integrada ao ambiente internacional.
Trinta anos depois da eleição de Tancredo Neves sabemos das imperfeições da democracia brasileira, mas podemos comemorar o fato de hoje não termos mais que conviver com os fantasmas golpistas que assombraram o Brasil por cem anos, desde a proclamação da república. Precisamos aperfeiçoar as instituições que permitem a convivência civilizada e a solução pacífica de controvérsias, e também provar ao mundo, e a nós mesmos, que a alternância de poder pode acontecer, que aqueles que hoje estão no poder poderão não estar amanhã, pela vontade soberana do povo brasileiro, nas urnas, em eleições livres e limpas.
Sabemos hoje que a economia precisa da política. Da boa política, daquela que aprendeu e emergiu dos vinte anos de ditadura mais madura, sem voluntarismo, com mais tolerância, sem ilusões sobre os atalhos da mentira e da violência.

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