"A farsa da Pátria Educadora", por João Caramez
15 de Fevereiro de 2016

O Brasil é uma “Pátria Educadora” para quem? Infelizmente, o que deveria ser o cumprimento de um dever da União se tornou o slogan de uma farsa. Nesta semana, dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que o Brasil está entre os países com o maior porcentual de estudantes com baixo desempenho em provas de matemática, leitura e ciências.


Professor de Matemática que lecionou durante anos na rede pública de ensino, recebi com preocupação e indignação os números do ranking que teve a participação de 64 países. Nossa Nação Verde e Amarela é a 10ª pior do relatório que foi baseado no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).


Na pesquisa, foram avaliados 2,7 milhões de alunos, dos quais 1,9 milhão de estudantes de 15 anos apresentaram dificuldades em matemática básica, 1,5 milhão, problemas em ciências e 1,4 milhão, em leitura. Mais da metade dos estudantes analisados tem déficit em áreas fundamentais, o que poderá comprometer seu desenvolvimento e formação profissional.


Estamos diante de uma realidade perturbadora que afeta visceralmente a Nação. O investimento da “Pátria Educadora” em educação sequer garante aprendizagem básica adequada para os jovens brasileiros. O “Brasil, um País de Todos” está entre os 10 países mais desiguais do mundo no que diz respeito a diferença de desempenho entre estudantes de classes sociais díspares – mais um dado relevante da avaliação da OCDE.


Que Nação é essa que abriga a educação num castelo de areia? O que poderemos esperar da formação destes estudantes que, embora estejam matriculados nas escolas, não aprenderam o mínimo necessário?


São inúmeras perguntas de professores que trabalham sol a sol e não recebem o devido reconhecimento profissional e humano e de pais que lutam para garantir uma vida digna para os seus e torná-los cidadãos honestos numa sociedade que tem a obrigação de acolhê-los assim como eles deverão respeitá-la. São regras de costume elementar que integram a vida e, mais que isso, constituem a cidadania.


Fato é que a educação é um direito para todos os cidadãos e não pode ser deixada de lado nunca, nem mesmo em momentos de crise. Investir em educação é combater as desigualdades sociais, a criminalidade, a fome e miséria, garantir saúde e qualidade de vida à população.


Independente da época: clássico e científico, primário, ginásio e colegial ou fundamental, médio e superior, a educação em todas as suas disciplinas é essencial para a formação humana. A aprendizagem e conhecimento que o cidadão carrega são determinantes para o que chamam de destino, mas é, em sua essência, resultado da semente plantada pela educação. Ter sucesso ou não na vida profissional e social está intrinsicamente ligado a bagagem educacional que recebemos ao longo da vida.


Assim, chega de “cultuar” a mandioca e fazer balbúrdia com o homo sapiens. O saber humano é muito mais que contos da carochinha. Para o escritor Coelho Neto “é na educação dos filhos que se revelam as virtudes dos pais”. Eu vou mais longe, é na educação dos brasileiros que a União revela sua inaptidão para gerir a Nação.


(*) subsecretário de Assuntos Parlamentares do Governo do Estado de São Paulo. Foi deputado estadual por quatro mandatos e professor de Matemática na rede pública de ensino

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