A era petista acabou
Alberto Goldman
Alberto Goldman
02 de Setembro de 2016

O início do fim já vem de longe. Desde meados do primeiro governo Lula a prática petista, contrariando toda sua história de vida, ficou escancarada com a revelação da distribuição de dinheiro público para sustentar uma maioria parlamentar. Destruído o princípio moral que tornara o PT o símbolo nacional da renovação dos métodos de governar, o resto foi uma sequência de fatos em períodos favoráveis da conjuntura econômica suficientes para sustentar o domínio petista por tanto tempo. Vale dizer, as boas notícias na economia escondiam os crimes e os golpes contra as instituições. Nesse contexto se deu a reeleição de Lula e a primeira eleição de Dilma.


Já nesse período petista os golpes vinham sendo desferidos em todas as áreas da atividade pública. Partidos foram sendo destruídos e parlamentares corrompidos, por dinheiro ou pela ocupação de postos públicos; sindicatos e associações populares cooptados por cargos e pela distribuição do imposto sindical; empresas estatais e organismos de governo tomados e assaltados pelo partido e seus aliados; agências reguladoras ocupadas pelos interesses privados apoiados nos militantes partidários; tribunais sendo constituídos por cidadãos sem a capacitação e a idoneidade indispensáveis; processos eleitorais manipulados pelo abuso do poder econômico e pelos recursos obtidos por todas as formas escusas que se poderia imaginar.


O fato é que, desde então, o nosso ordenamento jurídico permitia que um processo de perda de mandato do presidente em exercício fosse aberto, face às agressões às instituições democráticas e legais existentes. Vale dizer, não só não houve golpe agora como não teria sido se, ainda antes, um processo tivesse sido iniciado, tantas foram as razões legais e políticas que o embasariam.


Vivi esses períodos, intensamente, como parlamentar e líder do PSDB na Câmara dos Deputados, e testemunhei o nível de agressão do PT aos princípios legais e constitucionais. Tivesse havido a deposição anos antes, teria sido mais conforme as nossas leis e melhor para o país. Como hoje não foi golpe, também não o teria sido.


O quarto mandato petista, o segundo de Dilma, não teria acontecido não fosse a incrível avalanche de dinheiro público arrancado dos cofres da administração pública e não fosse o uso desonesto dos programas sociais para fidelizar o eleitorado mais humilde. Atingiu-se ao paroxismo com bilhões fluindo dos ativos do povo para as mãos sujas dos detentores do poder.


Tudo isso é, hoje, do conhecimento de todos. Há alguns anos só alguns de nós o sabíamos. Na campanha de 2014 isso foi exposto e ficava cada vez mais claro, e o resultado das urnas, maculado pela ambição desmedida pelo poder, foi a consequência.


Durante a campanha e depois da eleição escrevi nesse blog dando transparência aos fatos e apontando suas consequências. A releitura deles, desde 2014, confirmou que não era fantasia: a era do PT estava no fim, moribunda, em estado de coma. Apenas eu não esperava que durasse tanto tempo: quase dois anos após as eleições de 2014. O país foi sangrando esse tempo todo sem que Dilma tivesse a dignidade de reconhecer o desastre de sua manutenção no governo.


Foi muito além da imaginação. Bilhões e bilhões que foram extorquidos e assaltados do organismo estatal foram o suporte para que muitos – muitos- mais bilhões fossem alocados de forma irresponsável para possibilitar as propinas almejadas. Tudo em nome da manutenção do poder.


Repito, um inúmero conjunto de golpes foram dados em nosso país para sustentar um partido por quase 14 anos.


O quadro encontrado agora, depois da queda, a herança produzida, é de uma gravidade sem paralelos. A destruição da economia brasileira, em especial da indústria e do setor público, com consequências dramáticas que ainda estão no seu nascedouro, nos assustarão por muitos anos.


Depois de todos os golpes em todo esse período de domínio, encerra-se o governo Dilma com um golpe de última hora, no afã de preservar seus direitos políticos.


Numa articulação de um aliado, o presidente do Senado, Renan Calheiros, com a participação do líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira, seu candidato para a sua sucessão, e outros senadores da sigla, e a cumplicidade militante do presidente do STF, Ricardo Lewandowski, na presidência do julgamento da presidente, acordou-se com o PT a votação esdrúxula de uma matéria fatiada da principal para salvar os direitos políticos da presidente, de forma explicitamente contrária ao texto constitucional. Com isso Renan faz o jogo para manter sua presença na bancada de seu partido e no Senado e Lewandowski paga as suas dívidas. E o PT tem uma pequena vitória cujo custo para o país será a aprovação do projeto de reajuste dos salários da magistratura. Assim se realizou o acordão.


O PT poderia ter um fim mais digno. Mas não. Já sem quadros expressivos, desgastado, se apresenta através da voz da ex-presidente como quem vai fazer uma oposição implacável, como o fez no passado, sem qualquer compromisso com o povo que diz representar. Muitos certamente não a poderão fazer pois estarão cumprindo suas penas em algum estabelecimento prisional.


E esse era o partido, o PT, que vinha para tornar a vida política nacional mais saudável. Chegou ao estado de putrefação.


Agora vida quase nova. Quase, porque o governo que temos agora é uma perna do que tivemos. No entanto é assim que a Constituição manda, conforme a aliança que o próprio PT promoveu. Que sejamos mais felizes daqui para diante.

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