12 de ABR. de 2016
Mais uma etapa
12 de Abril de 2016
Um governo que se esfalfa para obter 33% dos votos no Congresso apenas para manter a presidente não tem condições de continuar existindo


O processo de impeachment de Dilma Rousseff deu ontem mais um, e decisivo, passo. A cada nova etapa do julgamento, a cada nova derrota, o governo renova seu estoque de explicações furadas. Sempre se inventa algum atenuante, mas a realidade é que as premissas sustentadas pelo discurso oficial nunca se confirmam na prática. Tal como sua narrativa, que classifica o afastamento constitucional e motivado da presidente como "golpe", elas são falsas.
O relatório do deputado Jovair Arantes foi aprovado por 38 votos a 27. A oposição à presidente recebeu cinco votos a mais do que o necessário e o governo teve votos a menos do que esperava. Para nuançar a derrota, o jeito foi apelar para a matemática: transpostos para o plenário, os 41,5% de votos a favor de Dilma na comissão seriam suficientes para barrar o impeachment, diz o governo. Sofismas, apenas, como tem sido recorrente.
Voltemos lá atrás. Em dezembro, o governo apelou ao Supremo contra a instalação da comissão então eleita, por julgar que ela feria os ritos previstos nos diplomas legais. Os ministros do STF se pronunciaram e determinaram procedimentos que o governo comemorou como favoráveis a Dilma. Dizia-se que, desta maneira, o pedido de impeachment seria derrotado já na comissão especial, constituída exatamente dentro dos critérios que o governo defendia.
Mas o andar do tempo e o desenrolar dos fatos - em especial a realização da maior mobilização política da história do país, ocorrida em 13/3, e os flagrantes de obstrução da Justiça protagonizados por Lula e Dilma - mostraram que a chance de barrar o impeachment na primeira rodada não era factível.
A partir daí, o governo remodelou seu discurso e passou a afirmar que o que importava era "perder de pouco" na comissão. Ontem, nova frustração: a derrota foi, considerados os pesos dos partidos na comissão, de muito. Mais uma vez, o previsto pelo governo não se confirmou.
Também não se confirmou a força, dita "avassaladora", que teriam os mercadores de nacos do Estado brasileiro, com Lula à frente. Legendas que haviam fechado negociações no balcão do Planalto e no puxadinho do hotel onde o comandante-em-chefe despacha verbas e cargos em troca de votos não entregaram a mercadoria. Não irão faltar desculpas no discurso oficial para mais esta frustração...
O que parece pesar nas seguidas derrotas da presidente, contudo, é a constatação, pelos parlamentares, de que dar sobrevida a Dilma equivale a afundar de vez o Brasil. É 100% certo que um governo que se esfalfa para obter 33% dos votos no Congresso apenas para manter a presidente no cargo não tem mínimas condições de continuar existindo. A sociedade brasileira já exprimiu sua vontade a respeito; os congressistas estão respondendo ao clamor.
Neste sentido, é interessante destacar o que disse, ontem, o ministro-chefe de gabinete Jaques Wagner, depois que vazou o áudio com um suposto pronunciamento de Michel Temer para um provável day after ao impeachment. Segundo ele, na improvável hipótese de Dilma sair-se vencedora na votação prevista para domingo, o vice-presidente deveria renunciar: "O mínimo de coerência com o que ele fez é, uma vez derrotada a conspiração, ele renuncie, porque vai ficar insustentável, insuportável", afirmou.
Ora, pau que dá em Michel, dá em Dilma. A recomendação cabe como luva, com sobras, na situação e nas atitudes da atual presidente, com a diferença de que as armas com que ela luta são cargos e verbas públicas usados sem pejo para comprar votos. Se Dilma sobreviver no cargo, ficará "insustentável, insuportável" a condição do país, exatamente como previu Wagner. Será que a defesa da renúncia de Temer feita pelo ministro também vale para a presidente? Ou será que, como tudo o mais que os petistas previram e falaram até hoje sobre o impeachment, suas palavras não valem um vintém?

- Carta de Formulação e Mobilização Política N. 1341

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