19 de JAN. de 2015
Efeito dominó (Carta 1063)
19 de Janeiro de 2015
Carta de Formulação e Mobilização Política, 19 de janeiro de 2015, No. 1063

É possível que a quadrilha que tomou de assalto a Petrobras não imaginasse que o estrago perpetrado na companhia iria tão longe. Mas, não bastasse ter arruinado os negócios da outrora maior empresa do país, a roubalheira também está derrubando setores inteiros da economia brasileira, causando desemprego e aumentando os riscos de recessão.

Deve-se ter em mente, inicialmente, a importância que o setor de petróleo ganhou na atividade econômica depois da reforma de 1997. Até então, a indústria petroleira respondia por cerca de 2% do PIB e, de lá para cá, tal fatia cresceu para os 13% atuais. Por isso, o tombo nos negócios do segmento é capaz de arrastar pedaços inteiros da nossa economia.

No centro desta cadeia, está a Petrobras. As atividades da companhia sofrem os efeitos da má gestão empreendida por lá nos últimos anos. A empresa está, neste momento, alijada do mercado, dada a incapacidade de divulgar seus dados contábeis referentes ao terceiro trimestre do ano passado.

Sem acesso a crédito, a Petrobras corre risco de não ter como rolar sua dívida, que é astronômica: desde 2007, a líquida multiplicou-se por dez e a bruta escalou para R$ 331 bilhões, tornando-a a empresa mais endividada em todo o mundo.

Os efeitos sobre a cadeia de fornecedores espalham-se como peças de dominó. O risco é o envolvimento de grandes empreiteiras flagradas pelas investigações do Ministério Público e da Polícia Federal paralisar parte relevante da atividade produtiva, obras de infraestrutura e afetar até mesmo o mercado de concessões.

Os trabalhadores também já começam a sofrer na pele as consequências do maior escândalo de corrupção da nossa história. Só nos últimos dois meses, foram mais de 12 mil demissões nas empresas enredadas na Operação Lava Jato, segundo O Estado de S. Paulo. Os cortes não devem parar por aí.

O governo percebeu que o estrago está indo mais longe que o imaginado. Sem os pagamentos da Petrobras e às voltas com o acerto de contas com a Justiça, as empresas estão se vendo em dificuldades financeiras. Ronda um risco sistêmico capaz de tragar um bom número de empreiteiras.

Foi o suficiente para o governo para esquecer a intenção de “pôr fim ao patrimonialismo” alardeada por Joaquim Levy em seu discurso de posse e Dilma Rousseff ordenar que bancos públicos como o BNDES e o BB destravassem empréstimos de R$ 10 bilhões para a Sete Brasil, principal fornecedora de sondas para a Petrobras no pré-sal.

Não se vê do governo, porém, um plano ordenado para permitir a recuperação sustentável da Petrobras e, desta maneira, restaurar a normalidade em toda a cadeia de petróleo no país – agravada pela queda vertiginosa dos preços do barril. Quem errou tem que pagar, mas isso não permite à gestão petista lavar as mãos. Muito pelo contrário.

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