13 de AGO. de 2013
Uma sandice a menos
13 de Agosto de 2013
O governo conseguiu, enfim, produzir uma boa notícia: arquivou o projeto para a construção do trem-bala. A decisão foi anunciada ontem e vale por tempo indeterminado, mas o melhor seria que o empreendimento fosse jogado no lixo da história. Seria uma sandice a menos numa gestão que se notabiliza em produzir lambanças ao invés de obras de infraestrutura.

Esta seria a quarta tentativa de leiloar o projeto de construção de um trem de alta velocidade ligando Campinas (SP) ao Rio de Janeiro. Trata-se de investimento que jamais provou ser viável financeiramente e necessário socialmente. O governo petista, porém, dedicou longos cinco anos de energia a isso.

A obra foi anunciada por Lula como uma das ações associadas à Copa do Mundo de 2014. Passou o tempo, e o trem-bala tornou-se um dos empreendimentos ligados às Olimpíadas do Rio de 2016. Agora, a previsão era entregá-lo em 2020. Ninguém achará ruim se a nova data-limite para o projeto passe a ser o nunca mais.

O trem-bala começou custando R$ 19 bilhões. Ao longo do tempo, seu custo foi subindo até chegar aos R$ 38 bilhões oficialmente admitidos atualmente por Brasília. Ninguém em sã consciência acredita, porém, que a obra saia por menos de R$ 55 bilhões - com o governo federal assumindo todos os riscos do projeto.

Com esta montanha de dinheiro, o Ipea já mostrou que dá para fazer 300 km de metrô ou 10 mil km de ferrovias, resolvendo boa parte dos problemas de mobilidade urbana nos grandes centros e dando um impulso decidido à competitividade dos produtos brasileiros - e abrindo, inclusive, novos corredores de exportação na direção da região Norte.

O projeto ainda não está de todo sepultado. O governo continuará torrando dinheiro (R$ 80 milhões) na execução do projeto executivo - a ser feito no escuro, sem saber a tecnologia dos trens que poderão vir a trafegar pela linha. E ainda almeja lançar a obra, provavelmente em 2015, na suposição de que a população brasileira cometerá a imprudência de dar uma segunda chance a Dilma Rousseff.

Quem sabe, contudo, o fracasso do trem-bala marque uma guinada positiva na agenda de prioridades do governo da presidente. Iniciativas à espera do empurrão do governo não faltam, a começar pelas concessões de rodovias e ferrovias, emperradas há um ano. Além delas, as barbeiragens cometidas na área de energia também suplicam por uma gestão mais eficiente.

O programa de concessões (privatizações) de obras de infraestrutura completa um ano nesta quinta-feira sem que um único leilão tenha sido realizado. Pelo cronograma inicial, a esta altura já era para 7.500 km de rodovias e 10 mil km de ferrovias já terem sido concedidos à exploração privada, com obras orçadas em R$ 133 bilhões prestes a começar.

As primeiras estradas só irão a leilão, porém, em 18 de setembro e a privatização de linhas ferroviárias ainda está mais distante, por esbarrar em problemas de definição de valores a serem investidos pelos novos concessionários, como mostrou O Estado de S.Paulo no último domingo.

Definir regras e cronogramas equilibrados, infelizmente, é tudo o que o governo petista não consegue fazer. É o que fica claro, mais uma vez, nos grandes empreendimentos da área energética em marcha no país. As obras até caminham, mas os benefí­cios nunca chegam. Usinas geram energia que não pode ser transmitida e nem consumida.

Ontem, o Valor Econômico relatou a situação das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira. A partir deste mês, as duas usinas terão capacidade para gerar 3.150 megawatts, mas, pelo menos até o fim deste ano, só conseguirão ofertar ao sistema interligado nacional cerca de um terço disso. Isto porque, por erro grave de planejamento, os sistemas de proteção e controle dos equipamentos - na geração e na transmissão - não conversam adequadamente entre si.

Mas tem mais: o linhão de Tucuruí, que interligará a região Norte ao restante do sistema elétrico nacional, também já ficou pronto, com seus 1,8 mil quilômetros e mais de 3,3 mil torres, mas a falta de uma parte do projeto, sob a responsabilidade de uma subsidiária da Eletrobrás, impede a interconexão. Deixa-se, com isso, de economizar R$ 2 bilhões ao ano.

Como se percebe, há desafios aos montes esperando solução por parte do governo. Quem sabe agora, sem ter que dispersar energia no alucinado projeto do trem-bala, a gestão petista passe a se dedicar mais a resolver problemas mais reais e mais prementes que continuam a atravancar o desenvolvimento do país. As soluções não podem continuar a vir em marcha lenta.

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